Cargill bate duro na intervenção do governo no frete

segunda-feira, 30 de julho de 2018 às 11h09

“Estamos vivendo algo inédito: o governo brasileiro defendendo a formação de cartéis privados no país. Não tenho palavras para descrever quão absurda é a intromissão governamental e a omissão regulatória em assuntos privados”.

Palavras de indignação de Paulo Sousa, o segundo homem mais poderoso da Cargill no Brasil depois do presidente.

Diretor para Oleaginosas na América do Sul, o tema roubou sua agenda nos últimos dois meses.

O executivo está em vias de ordenar a compra de mil caminhões, na tentativa de dar alguma previsibilidade econômica ao seu negócio. Segundo ele, é até pouco perto do que a Cargill necessita para movimentar as 30 milhões de toneladas de grãos e subprodutos que negocia todos os anos no mercado brasileiro e nas exportações a partir do país.

“É impossível termos caminhões suficientes para gerar tudo, com base no nosso volume e capilaridade. O que vamos fazer, se formos obrigados a ir nessa direção, é colocar nossos próprios caminhões em rotas com previsibilidade e eficiência”, diz.

Ou seja, de origem e destino controlados, como o trecho de um de seus armazéns em Mato Grosso para o terminal ferroviário em Rondonópolis. Rotas consideradas ruins, como as em que a carga está em áreas distantes do asfalto ou onde a espera do caminhão por troca de nota fiscal é longa, ficarão com o frete terceirizado.

No mix de alternativas, a Cargill estuda ainda elevar o percentual de grão posto em suas fábricas e portos (em que o produtor é responsável pelo frete), hoje inferior a 5%, e maneiras híbridas de acordo com os vendedores. 

Com receita líquida com vendas e serviços da ordem de R$ 34 bilhões no Brasil e lucro de quase R$ 530 milhões no ano passado, a subsidiária diz que o investimento em frota própria, ainda que pequena, justifica-se já que algumas rotas já trabalham bem próximas da tabela de preços determinada pela ANTT, agência que rege o mercado de transportes terrestres no país.

Outras, passaram dos 100%, como nos fretes de retorno. Segundo o executivo, as cargas a granel passaram a ter o custo de frete mais alto que o de frigorificados, de maior valor agregado.

Sem citar números, ele se limita a dizer que o impacto do novo frete é “gigantesco”. O recado que Sousa passa é, na verdade, político.

O prazo para a aquisição de caminhões é curto, e falta mão de obra especializada. Mas a data final para implementação das ações ainda não está decidida. A Cargill ainda guarda esperanças de o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir, no fim de agosto, sobre a inconstitucionalidade da medida.

Até quando esperariam? O calendário de colheita da soja começa em janeiro. Sousa reluta. “A partir do momento que se esgotarem as alternativas. Na eleição? Alguém que não tenha vínculo com essa confusão toda”, diz, por fim. “A comercialização de safra futura está parada. E quem tem o poder e a confiança, até agora, da população brasileira para fazer a situação voltar ao normal está omisso. Ou com medo: não age de acordo com a expectativa e a sua obrigação”.

“Nós estamos sendo forçados a estudar a entrada em um setor que não está na nossa estratégia de negócio. Não queremos fazer isso. Não seremos os melhores nisso. Nosso negócio não é operar frota rodoviária”, reitera. Ao mesmo tempo, Sousa acredita que, independentemente de qual medida adotarem, será temporária. “Isso não tem como durar. Você já viu alguma tabela dar certo? É inconstitucional, mas o STF tem que dizer”.

Como de costume, tradings como a Cargill, mas também Bunge, ADM, Cofco e Dreyfus, travaram preços ao originar antecipadamente a safra 2018/19. E dois cenários embaralharam o caminho: a guerra comercial de EUA-China, que derrubou a cotação internacional da soja, e o frete pré- fixado, muito mais alto que o planejado.

Segundo Sousa, nem os prêmios à soja brasileira – que já chegaram a US$ 2,50 por bushel – ajudam. A expectativa é de impacto nos resultados financeiros trimestrais das tradings que operam no Brasil.

Nesta semana, o setor decidiu intensificar o contra-ataque ao tabelamento em comunicado assinado por cinco associações: Abiove, Acebra, Anec, Aprosoja e a Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Cargas, a Anut.

“O Brasil já teve experiências trágicas com controle de preços e da livre competição pelo governo. Infelizmente, o Executivo e o Legislativo fracassaram em evitar que o país recaísse nessas mesmas práticas”.

Em clara reorientação de posição, a Cargill tem puxado esse coro entre as tradings do país. Fora daqui, porta-vozes do alto escalão da multinacional americana, a maior do agronegócio mundial, têm se manifestado publicamente ante outra dor de cabeça do setor – desta vez, os desatinos comerciais do governo de Donald Trump.

Fonte: Valor Econômico.

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